RESUMO DE LIVRO: “1889″

RESUMO DE LIVRO: “1889″
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LIVRO “1889 (Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil)” 

AUTOR: LAURENTINO GOMES

AUTOR DO RESUMO: WILTON FONSECA

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Senhor Barão, Vossa Excelência está preso! – Tenente Adolfo Pena, ao dar voz de prisão ao Barão de Ladário, ministro da Marinha, na manhã de 15 de novembro de 1889

INTRODUÇÃO

A Proclamação da República não é uma data muito lembrada. O brasileiro tem vínculo maior com efemérides até regionais, como o 9 de julho em São Paulo. Isso acontece, porque o brasileiro comum não teve participação decisiva no movimento republicano. A República brasileira nasceu descolada das ruas.

Não houve derramamento de sangue na mudança de regime, mas nos dez anos subsequentes com a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, Canudos no Nordeste e outros movimentos. As feridas abertas nesses conflitos marcaram a primeira fase republicana brasileira com a censura da imprensa, o Parlamento fechado, a prisão e a deportação de adversários políticos.

A República Velha, que durou até 1930, também ficou distante do povo e celebrizou a política do café com leite: mineiros e paulistas revezavam-se no poder central. Quem mandava era a mesma aristocracia rural que havia dado as cartas na época da Monarquia.

A Monarquia feneceu sozinha. Sofreu um desgaste natural. A abolição da escravatura em 1888 sem indenização aos proprietários de escravos e a Guerra do Paraguai foram “os últimos pregos do caixão” do regime.

A República surgiu do contraste entre os rituais da nobreza e seus palácios de cristal em Petrópolis, e a dura realidade da escravidão, do analfabetismo e da fraude eleitoral. Na verdade, a Monarquia não foi derrubada, ela desmoronou.

A estranheza entre as promessas e a prática republicanas esclarece, em parte, a atual falta de prestígio do Quinze de Novembro no calendário cívico nacional.

Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado” – Capitão Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso, bisavô do presidente Fernando Henrique Cardoso, em telegrama enviado de Goiás ao filho, Joaquim Inácio, que ajudara a proclamar a República em 1889

  1. 1.    O PRÍNCIPE E O ASTRONAUTA

No final de dezembro de 1889, o Almirante Custódio José de Mello, comandante do navio brasileiro Almirante Barroso recebeu telegrama, no antigo Ceilão, informando sobre a Proclamação da República. Junto veio a instrução de colocar sobre a coroa que ornamentava a bandeira nacional uma estrela vermelha. Havia um segundo problema a resolver. Era a presença a bordo do segundo-tenente Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança, de 22 anos, mais conhecido como Príncipe Augusto, filho da Princesa Leopoldina e neto do Imperador Dom Pedro II.

O telegrama exigia que ele pedisse demissão e informava, também, que perdera a nacionalidade brasileira. Estava demitido e sem pátria em alto mar. Ficou na situação de um astronauta moderno, à deriva no espaço, sem ter onde pousar.

O príncipe desembarcou no Ceilão. Morreu na Áustria, 32 anos mais tarde, sem jamais ter pisado novamente em solo brasileiro.

  1. 2.    O GOLPE

O representante de São Paulo na reunião de republicanos que perpetrariam o golpe contra a Monarquia foi o maçom campineiro Francisco Glicério de Cerqueira Leite. Hoje, ele dá nome à Baixada do Glicério, área degradada do centro da capital paulista. Antes, reuniu-se, em São Paulo, com os líderes republicanos Campos Salles e Campos Júnior.

No Rio, percebeu um ambiente tenso. Tramava-se a derrubada do ministério liderado pelo mineiro Afonso Celso de Assis Figueiredo, visconde de Ouro Preto.

Na reunião de 8 de novembro, da qual participou Glicério, Benjamin Constant votou pelo exílio de D. Pedro II e o alferes Joaquim Inácio pelo fuzilamento puro e simples. A proposta de Benjamin foi a vencedora. O “sanguinário” Joaquim Inácio Cardoso, então com 29 anos, viria a ser avô de um futuro presidente da república: Fernando Henrique Cardoso.

Em 11 de novembro, houve a reunião decisiva com a presença do paulista Glicério, sob a liderança do Marechal Manoel Deodoro da Fonseca com a saúde visivelmente abalada. Foi feita uma divisão de tarefas com os militares cuidando da revolução armada e os civis da preparação política.

O dia 14 abrigou os preparativos da revolução. O General Floriano Peixoto, alto funcionário de confiança do Ministério, fez o papel de agente duplo. Embora fizesse parte do movimento revolucionário, tranquilizou o Visconde de Ouro Preto, garantindo-lhe que a situação estava sob controle. O Imperador, em Petrópolis, tão velho e doente quanto Deodoro, não apreendeu a gravidade dos acontecimentos. Informado no dia 14 sobre a agitação nos quarteis, apenas na manhã do dia 15 resolveu contra atacar; já era tarde.

Na madrugada do dia 15 de novembro, Benjamin Constant, testemunhando o estado decrépito de Deodoro da Fonseca, resolveu comandar as tropas rebeldes. Rapidamente, mobilizou-as e transmitiu orientações aos líderes civis. Na manhã de 15 de novembro, a grande maioria dos soldados que integravam as tropas golpistas não estava consciente de que se pretendia derrubar a Monarquia.

Refugiados no edifício do exército, “a cratera do vulcão”, o Visconde de Ouro Preto e o ministério julgavam-se protegidos pelos Generais Floriano Peixoto e Almeida Barreto. No entanto, ambos eram republicanos a serviço do Marechal Deodoro, e, serenamente, apenas observavam a movimentação dos revolucionários como se não estivesse acontecendo nada.

O Ministro da Marinha, Barão de Ladário, tentou resistir. Foi gravemente ferido à bala. Perdido, o Primeiro Ministro, Ouro Preto, reconheceu a queda da Monarquia. A tropa que devia proteger o regime, nesse momento, confraternizava-se com Deodoro.

Segundo o discurso que se seguiu, Deodoro não tinha intenção de proclamar a República; chegou a dar vivas ao Imperador. As aparências indicavam que ele pretendia apenas depor o Ministério que, em sua opinião, tratava os militares do exército com desprezo. Salientou o heroísmo na Guerra do Paraguai, pouco reconhecido pelo ministério deposto.

A seguir, o Marechal Deodoro retirou-se para a sua casa. Estava muito doente e precisava repousar.

O manifesto que o governo provisório divulgou naquela noite, assinado por Deodoro, anunciava que o Exército e a Armada tinham decretado a deposição da família imperial e o fim da Monarquia, mas em nenhum momento mencionava a palavra República.

  1. 3.    O IMPÉRIO TROPICAL

No ano da Proclamação da República, o Brasil tinha cerca de 14 milhões de habitantes. A esmagadora maioria era analfabeta. Não havia política educacional séria. Oito em cada dez brasileiros moravam na zona rural. Na Economia, o carro chefe era o café. Sozinho, o Brasil fornecia cerca de 60% da produção mundial.

Iniciada em 1864, A Guerra do Paraguai durou até 1870. O conflito sangrento profissionalizou o exército e desenvolveu no país o patriotismo. O Brasil, de dimensões continentais, foi o único país da América do Sul que não se fragmentou, conservando a sua integridade territorial.

Com o fim da Guerra, a mobilização transferiu-se para a abolição da escravatura consumada em 13 de maio de 1888.

Ainda como decorrência da guerra, o Exército se fortalecera. A presença dos militares como força política tornou-se realidade e seria um fator decisivo paras a queda da Monarquia e a Proclamação da República.

Na época da Proclamação da República o país passava por grande desenvolvimento. As novidades europeias foram rapidamente absorvidas na moda, no transporte, nas comunicações, no turismo. Por exemplo, o navio a vapor fazia grande sucesso e na cosmopolita cidade do Rio de Janeiro falava-se ao lado do português, o francês. Ruas calçadas percorridas por charmosos bondes elétricos faziam parte da paisagem carioca. Indubitavelmente, o país mudava econômica e politicamente, pois novos Estados eram criados, exigindo sofisticada máquina administrativa. Cabo submarino ligava o Brasil à Europa e aos Estados Unidos facilitando as comunicações. A imprensa e o mercado editorial prosperavam. O Brasil, graças às dimensões e ao desenvolvimento, era um império tropical.

No Rio de Janeiro havia a Escola Dom Pedro II que brigava a elite estudantil. Os seus exames eram acompanhados pessoalmente pelo Imperador D. Pedro II. A população adotava trajes e hábitos europeus sob uma temperatura que chegava facilmente aos 40 graus.

Nos meses de verão a sede da corte ficava entregue à população mais pobre. Quem era poderoso, rico ou famoso mudava-se para Petrópolis que tinha um clima ameno e ficava plantada nas encostas da serra fluminense. Com infraestrutura invejável era uma ilha de sofisticação europeia no meio de uma densa e luxuriante floresta tropical.

O país não conseguiu industrializar-se como queria o Barão, depois Visconde de Mauá, o seu homem mais próspero. Ele investiu em estaleiros, ferrovias e outros empreendimentos. Mas, a Inglaterra, país do tamanho da província do Ceará, já tinha 5 mil quilômetros de estradas de ferro, enquanto o Brasil, 65 vezes maior, tinha minguados 14,5 quilômetros. O país relutava em abandonar a sua vocação agrícola e tinha o café como principal produto.

Em 1850, a Lei Euzébio de Queiroz proibia a vinda de novos escravos da África. O preço do cativo da terra ficou proibitivo. São Paulo beneficiou-se do fato, importando escravos do Nordeste para a lavoura do café. Assim, os engenhos de açúcar do nordeste entraram em aceleradas decadência.

Sem poder importar escravos, o Brasil incentivou a migração de europeus. No entanto, não deu a essa preciosa mão-de-obra um tratamento digno. O estrangeiro vivia num estado análogo ao da escravidão. Por isso, a Prússia (atual Alemanha), a Itália e outros países desestimularam o fluxo migratório em direção ao Brasil.

No país, de um lado, havia um grande território, repleto de riquezas. De outro, escravidão, analfabetismo, isolamento e rivalidades políticas e regionais.

A Independência de Portugal trouxe uma esperança que logo foi frustrada. A nação não confiava em seu Imperador D. Pedro I devido aos escândalos de sua vida pessoal e ao seu evidente interesse no trono português.

Quando D. Pedro I partiu para Portugal, Pedro de Alcântara era uma criança de apenas cinco anos. No período de Regência, entre 1831 e 1840, o Brasil viveu certa ilusão de progresso e de liberdade.

Nem tudo foi bonança. Estouraram revoltas populares que aproveitaram a fragilidade da regência. A mais célebre foi a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. Essa revolta foi a que mais ameaçou a integridade territorial do país. Caxias foi a principal liderança militar do Império desde os conflitos da Regência até o final da Guerra do Paraguai. Morreu em 1880.

A sucessão de revoltas levou ao endurecimento do regime e à antecipação da maioridade de D Pedro II no dia 23 de julho de 1840. Começava ali o longo Segundo Reinado, que seria interrompido por outro golpe, o da República, quase meio século mais tarde, na manhã de 15 de novembro de 1889.

  1. 4.    A MIRAGEM

De todas as lembranças do Império, a mais simbólica é a cidade de Petrópolis, o refúgio da corte no verão do Rio de Janeiro às vésperas da Proclamação da República.

Em Petrópolis, há duas cidades numa. Há aquela moderna, construída em concreto que ostenta boa qualidade de vida em relação a outras localidades brasileiras. Há, também, a cidade Imperial, o atual centro histórico, onde se respira a atmosfera do Império, suas solenidades e o seu luxo. Cápsula de tempo preservada na serra fluminense, Petrópolis é testemunha de uma miragem histórica.

Na época do Império, o Brasil era uma miragem. A elite era uma ilha de letrados num mar de analfabetos. O artigo de 179 da Constituição vigente definia a igualdade e a liberdade como direitos inalienáveis do homem, enquanto mais de 1 milhão de brasileiros permaneciam nas senzalas. A miragem era o Brasil idealizado das leis e a realidade existia na miséria e no analfabetismo do povo.

Outra miragem eram os títulos de nobreza concedidos em troca de dinheiro ou de apoio político. O Brasil tinha condes, viscondes e barões cujo único mérito fora a compra do título ou o apoio irrestrito à Coroa. Um exemplo: o único mérito da duquesa de Goiás foi o de ser filha bastarda de Dom Pedro I com a Marquesa de Santos, assim titulada por ser sua amante.

Outro exemplo: Os barões do café viviam com um luxo que não era respeitável, pois tinha origem na senzala do negro e no chicote do feitor.

O funcionalismo público também era uma miragem. Por ser centralizador, o governo não dava condições às pessoas inteligentes de prosperarem nas praticamente inexistentes empresas privadas. Os empreendedores não tinha campo para testar as suas criações. O funcionalismo público abrigava essas pessoas inteligentes e que não tinham futuro, porque o governo centralizava todas as atividades. Isso gerou uma inflação de cargos.

Na realidade, o funcionalismo era um cancro que devorava e aniquilava as forças do país, prejudicial não só no aumento das despesas, como pela desorganização do serviço.

Miragem muito valorizada era a literatura. Nossos principais literatos eram funcionários públicos e, claro, dependentes financeiramente do poder imperial. Nesse caso podemos contabilizar José de Alencar, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Raul Pompeia e outros. Por isso, nosso índio era, na literatura, europeizado e não havia negros protagonistas nas obras. Na pintura, como no célebre quadro de Victor Meireles sobre a independência, vemos cenários e personagens impensáveis num país miserável como o nosso. Os membros do Instituto Histórico e Geográfico trabalhavam sob o tacão do Imperador; não havia imparcialidade. Éramos um país de pobretões idealizado por meia dúzia de ricos.

As eleições eram fraudadas, pois não havia o voto secreto.

O sistema judicial era inspirado no modelo europeu, portanto, exemplar. Pela Constituição, todos tinham direito à Justiça. Na prática, a lei dependia dos chefes locais que a aplicavam a seu exclusivo talante. O braço da justiça não era nem bastante longo nem bastante forte para abrir as portas das fazendas.

No campo da miragem, a Constituição rezava que o Imperador exercia o poder moderador que visava garantir a harmonia entre os poderes executivo, legislativo e judiciário. No país real, o imperador o poder do imperador era absoluto. Ele impunha a sua vontade à revelia dos outros poderes constituídos. Para isso contava com as fraudes eleitorais e a facilidade de dissolver a Câmara sempre que achava necessário.

Em 1886, apenas 0,8% d população reunia condições legais para votar.

Para ser eleitor era necessário ser homem, alfabetizado, proprietário de terra ou outro bem de raiz, ter uma renda determinada e idade mínima de 25 anos. Mulheres, escravos, índios, assalariados, estrangeiros e pessoas que não professavam a religião católica estavam excluídos. A exclusão foi a marca do Império.

  1. 5.    DOM PEDRO II

Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Habsburgo e Bragança, mais conhecido como Dom Pedro II, governou o Brasil por 49 anos, três meses e 22 dias.

Deixou a unidade do país consolidada. Aboliu a escravidão. Enfrentou revoltas e guerras sem permitir a desagregação territorial tão comum na América do Sul.

Foi o sétimo filho de D. Pedro e de Dona Leopoldina. Terceiro filho homem, herdou o trono por causa da morte prematura dos irmãos mais velhos. Era culto e lia muito. Tinha uma expressão triste segundo relatos da época. A tristeza vinha da época da partida do pai ao qual era muito apegado.

Em 7 de abril de 1831, D. Pedro I partiu para Portugal. José Bonifácio de Andrada e Silva ficou como tutor do Imperador até 1833. José Bonifácio foi sucedido por Manuel Inácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, marquês de Itanhaém, tutor até 1838.

Sua educação foi rígida, inclusive no aspecto religioso. Em 1837, aos sete anos de idade, já falava e escrevia em francês, lia e traduzia em inglês. No fim da vida, conhecia vários idiomas, entre eles o tupi-guarani. Sua saúde sempre foi precária; tinha diabetes e sofria de epilepsia. Essa doença, herdou do pai. Passou uma infância tristíssima na qual experimentou grande carência emocional. Refugiou-se no mundo dos estudos.

Casou-se por procuração com Teresa Cristina, em maio de 1843, sete meses antes de completar 18 anos. Ela tinha três anos a mais que o imperador. Irmã do rei de Nápoles e princesa das duas Sicílias, descendia dos Habsburgos e dos Bourbons.

Ao conhecê-la, em setembro de 1843, Dom Pedro decepcionou-se; ela era feia, rechonchuda e mancava de uma perna. Tinha braços curtos e mãos gorduchas.

Teve com ela um convívio protocolar. Os dois filhos mais velhos, ambos meninos, morreram antes de completar 2 anos. Sobreviveram três meninas: Isabel, herdeira do trono, e Leopoldina Teresa que morreu aos 23 anos.

D. Pedro II era um homem discreto. Sua vida não foi permeada de escândalos amorosos, ao contrário do pai. Mesmo assim, teve, comprovadamente, 14 amantes. De seus amores, o mais duradouro foi Luísa Margarida Portugal de Barros, Condessa de Barral. Dom Pedro e a condessa morreram no mesmo ano, 1891, ela em janeiro, ele em dezembro, sem nunca deixar de se corresponder e se encontrar quando as viagens permitiam.

Nos primeiros trinta anos de governo, D. Pedro II viajou pelo Brasil. Sempre recebeu ovações entusiasmadas nas províncias visitadas. Em 1845, foi cumprimentado, no Rio Grande do Sul, por Bento Gonçalves, líder da Revolução Farroupilha que teve a duração de dez anos.

Em 1871, fez a primeira de uma série de viagens ao exterior. Nessas excursões, gostava de ser chamado de Monseur Pedro de Alcântara, nunca de Majestade.

No seu palácio, a gastronomia era pobre. Comia-se depressa uma refeição normalmente fria, mal feita e servida com displicência.

Do pai herdou a austeridade no uso do dinheiro público. A dotação da família real, de oitocentos contos por ano, nunca mudou durante o seu longo reinado. Por isso, recorria constantemente a empréstimos que pagava religiosamente. Tinha o hábito de fornecer bolsas de estudos no exterior para jovens promissores e patrocinava algumas instituições culturais.

Em seu governo havia liberdade de expressão. O imperador não se agastava com as inúmeras e ásperas críticas que recebia. Era um monarca que respeitava e se fazia respeitar. Uma curiosidade: apesar de Imperador era um entusiasta do regime republicano.

  1. 6.    O SÉCULO DAS LUZES

Em 1876, a jovem república dos Estados Unidos comemorou o primeiro aniversário de sua independência, na Filadélfia, com a “Exposição Internacional de Arte, Manufatura e Produtos do Solo e das Minas”. Ali estavam expostas muitas invenções futurísticas como o motor a explosão e o telefone. Ocupava uma área pouco inferior à do atual Parque Ibirapuera, em São Paulo. O Século das Luzes, como foi chamado o Século XIX também proporcionaria as mudanças políticas conduzidas por uma nova classe social que possuía riqueza e prestígio, mas não tinha títulos de nobreza: a burguesia. O Imperador estava testemunhando mudanças que precipitariam o fim de seu governo. Para ter uma noção da importância do século XIX, basta ver a impressionante galeria de pensadores, inventores, cientistas, artistas e revolucionários que viveram nessa época.

Jovens oficiais do exército, abolicionistas, professores e advogados, jornalistas, escritores e intelectuais ajudaram a derrubar a Monarquia brasileira.

O mundo estava mudado. As informações chegavam rapidamente. As comunicações atravessavam o oceano pelos cabos de telégrafo submarinos. Novas ideologias, como o capitalismo, o socialismo e o comunismo divulgavam os seus princípios. O papel tornou-se barato e o acesso à leitura democratizou-se. Estradas de ferro e navios a vapor transportavam o progresso. O homem passou a viver mais no rastro de descobertas científicas e as populações dos diversos países aumentaram vertiginosamente.

Maior concentração urbana significava transformação política. Pessoas que viviam isoladas passaram a frequentar os mesmos ambientes e participavam das mesmas festas públicas e religiosas dos habitantes urbanos.

Foi nesse clima de mudança e ruptura que se deu a Proclamação da República no Brasil.

  1. 7.    OS REPUBLICANOS

Antônio da Silva Jardim era o mais radical de todos os propagandistas republicanos. Pregava abertamente a Proclamação da República e a execução da família real. Ele queria imitar a Revolução Francesa. A imprensa, sem censura, publicava artigos contrários à Monarquia, além de sátiras contundentes.

Silva Jardim queria a instituição da República em 1889 em homenagem ao centenário da Revolução Francesa. Havia os moderados como Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio e Benjamin Constant. Não nos esqueçamos de que José do Patrocínio era muito grato à Princesa Isabel por causa da abolição da escravatura.

A República não surgiu do dia para a noite. Ela teve os seus mártires como Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes) e Joaquim do Amor Divino Rabelo (o Frei Caneca). O primeiro foi enforcado e o outro, fuzilado.

Movimentos armados também aconteceram, como a Sabinada, a Revolução Farroupilha, a Guerra dos Mascates, a Revolução Pernambucana e a Revolução Praieira.

O discurso republicano ganhou força a partir de 1868, com desentendimentos políticos entre liberais e conservadores.

Coube a Itu, no interior de São Paulo, ser o berço do mais bem organizado movimento republicano brasileiro: A Convenção de Itu que reuniu, em 1873, a fina flor da agricultura cafeeira paulista. Da convenção surgiram as bases para a criação do Partido Republicano Paulista.

Em 1874 foi fundado o Jornal a Província de São Paulo, hoje “O Estado de São Paulo”. Seus dois principais sócios e diretores foram Francisco Rangel Pestana e Américo Brasílio de Campos, notórios republicanos.

Apesar da grande mobilização, os republicanos não conseguiam eleger número considerável de representantes na Câmara dos Deputados. Os republicanos eram divididos: havia uma corrente amplamente democrática, outra tão radical que pregava o fuzilamento da família real e a terceira propunha a instituição de uma ditadura republicana. Portanto, brigavam entre si. Com tantas divisões, os republicanos viram postergados os seus ideais políticos. Apenas em 1889 conseguiram um sufrágio mais respeitável.

Até 1889, os diferentes grupos republicanos agiam de forma isolada, com pouca articulação entre si, mas todos aderiram rapidamente na madrugada de 15 de novembro de 1889 ao golpe do Marechal Deodoro da Fonseca que não se identificava com nenhuma das facções. Segundo todas as evidências, nem republicano era.

Os republicanos não tinham representatividade para fazer a mudança de regime pelos meios políticos.  Por isso, insuflaram os militares e a República veio por um golpe planejado às escondidas e executado na calada da noite.

  1. 8.    A MOCIDADE MILITAR

O Rio de Janeiro e a Escola Militar da Praia Vermelha eram o celeiro da “mocidade militar” que prepararia e executaria o golpe contra a Monarquia em 15 de novembro de 1889. A mocidade militar foi o fermento do bolo cujos ingredientes foram oficiais militares mais veteranos, os fazendeiros do oeste paulista e toda a galeria de jornalistas, advogados e intelectuais republicanos.

Teoricamente, os nossos republicanos seguiam o Positivismo de Augusto Conte que considerava a Monarquia o sistema político mais ingênuo, alicerçado no poder divino do monarca. Para ele, o sistema evolutivo do poder resultava da aplicação pura e simples dos princípios das ciências exatas nas ciências humanas.

No entendimento de Conte, se existe uma ORDEM estática nas sociedades, possível de ser compreendida pela observação científica, haverá também uma dinâmica social que levará ao PROGRESSO. Daí o lema de nossa bandeira: Ordem e Progresso. Uma vez entendida a ORDEM da sociedade seria possível reformar as suas instituições de maneira a acelerar o PROGRESSO.

Conte levava a sério suas teorias. Chegou a criar uma igreja positivista, onde os ídolos nos nichos das igrejas eram cientistas de renome do passado. Eles eram os santos e Conte, o sumo pontífice.

Na segunda metade do século XIX, o positivismo já estava em decadência na Europa. No Brasil, no entanto, principalmente em centros de excelência como a academia militar, estava no apogeu.

A primeira agremiação positivista do Brasil teve entre os membros o Major Benjamin Constant e o engenheiro militar Roberto Trompowsky Leitão de Almeida, ambos professores da Escola Militar. Eles levaram para o exército as ideias de Augusto Conte.

A escola militar abrigou algumas sociedades secretas positivistas. Os estudantes moravam em grupo nas chamadas repúblicas. Mas era justamente em locais como esses chamavam que germinava, em 1889, a semente da derrubada do Império. E não por acaso se chamavam repúblicas.

  1. 9.    A CHAMA NOS QUARTÉIS

Começou no Piauí, em 1886, com a chamada Questão Militar (série de conflitos envolvendo o exército e o governo imperial entre agosto de 1886 e maio de 1887), o desmoronamento do edifício imperial. Uma sucessão de artigos em que oficiais do exército ofendiam-se mutualmente gerou indisciplina e conflito. O governo interviu rigorosamente. O exército todo se dizia ofendido e maltratado pelo governo. Os chefes militares do país passaram a defender publicamente a proclamação da república.

Aos poucos, a crise começada no distante Piauí deslocava-se para o coração da corte imperial, o Rio de Janeiro. Dentre os militares descontentes destacavam-se Sena Madureira e Euclides da Cunha. Os atos de indisciplina sucediam-se a todo o momento. Clubes militares eram fundados por oficiais descontentes. O Marechal Deodoro era presidente de um deles.

10. O MARECHAL

Até às vésperas de 15 de novembro de 1889, Manoel Deodoro da Fonseca, o fundador da República, não era republicano. Aparentemente, o marechal alagoano só se converteu ao projeto republicano forçado pelas circunstâncias e a contragosto, ao perceber que a mudança de regime se tornara inevitável.

De origem humilde, ascendeu a cargos importantes na hierarquia militar graças aos próprios esforços. No exército pertencia à categoria dos “tarimbeiros”, como eram conhecidos os oficiais veteranos da Guerra do Paraguai e oriundos de famílias pobres.

Seu currículo na Escola Militar registra repetidos casos de indisciplina, sempre por desacato ou problemas com os superiores imediatos.

Após a Guerra do Paraguai, Deodoro ascendeu na carreira militar no Rio Grande do Sul. Chegou à condição de chefe militar e civil dos gaúchos na época da Questão Militar. De lá seguiu para o Rio de Janeiro, onde se envolveria com a “mocidade militar” de Benjamin Constant.

Boatos de que o governo desmobilizaria o exército no Rio de Janeiro, transferindo-o para ouras províncias e de que a Guarda Nacional deteria o poder militar na capital revoltaram ainda mais os militares. Na tentativa de acalmar o Rio Grande do Sul, muitos oficiais republicanos foram transferidos para o Rio de Janeiro e lá passaram a conspirar.

No dia 14 de novembro, interrogado sobre os boatos de que os quartéis estavam em pé de guerra, Floriano Peixoto disse ao Ministro da Guerra, Visconde de Maracaju, que o governo estava em cima de um vulcão.

Dentre os que alimentavam o combustível do vulcão estava o próprio Floriano a essa altura comprometido com republicanos.

  1. 11.  O PROFESSOR

O professor e tenente-coronel Benjamin Constant Botelho de Magalhães, no famoso quadro de Henrique Bernardelli sobre a Proclamação da República, é a personagem mais injustiçada. No quadro, ele ocupa um plano obscuro. A rigor deveria estar em primeiro plano, talvez com um destaque maior do que o dado ao marechal Deodoro.

Benjamin Constant teve uma infância infeliz: órfão de pai aos treze anos de idade, aos quinze anos viu a mãe ser acometida de loucura. Aos quinze anos, viu-se como arrimo de família. Seguiu a carreira militar não por vocação, mas por necessidade. Usava, sempre que possível, roupas civis e na Guerra do Paraguai ganhou a fama de covarde. Além de tudo sofria de grande complexo de inferioridade.

As decepções na vida profissional, somadas à recorrente mania de perseguição, levaram-no a se distanciar do ambiente da Monarquia, onde via as portas se fecharem, e a abraçar a causa republicana.

Sem a prévia ação doutrinadora de Benjamin, é possível que Deodoro nem sequer tivesse tropas para comandar naquele dia 15 de novembro.

A sua atuação equilibrada nas apaixonadas reuniões dos republicanos e o respeito conquistado levam à constatação de que a Proclamação da República foi uma revolução política dirigida por um professor de matemática.

A junção do magistério com a fé positivista fizeram-no líder natural da “mocidade militar”, braço estudantil do movimento republicano. Alunos e jovens oficiais tinham em Benjamin Constant o guia do que eles denominavam “terra da promissão – solo da liberdade!”

Quando o governo se apercebeu da força da “mocidade militar” já era impossível barrar a sua marcha em rumo da República.

  1. 12.  OS ABOLICIONISTAS

 

 

 

O movimento abolicionista foi a primeira campanha de dimensões nacionais com participação popular. De quebra, deu o empurrão que faltava para queda da Monarquia.

A escravidão foi acabando aos poucos sob supervisão da Inglaterra que declarou guerra ao trabalho cativo. As leis favoráveis aos escravos progrediam em compasso muito lento, até que algo notável aconteceu: O Brasil inteiro foi palco da criação de bem organizados clubes antiescravistas.

A escravidão foi abolida em 13 de maio de 1888. Feita de forma açodada não se preocupou com o destino dos escravos que foram largados à própria sorte. Os defensores da abolição, membros dos clubes escravistas, eram advogados, professores, médicos, jornalistas e outras profissões urbanas. Esse contingente liderado por José do Patrocínio, um mulato, filho de mãe escrava e pai padre e por Joaquim Nabuco, membro da elite financeira e intelectual da época, inicialmente apoiou a Monarquia.

A abolição significou o resgate do grande erro ainda da época da Independência do Brasil, que libertara politicamente os brancos sem libertar socialmente os negros. A princesa Isabel tornou-se muito popular, mas as classes conservadoras fugiam dela e a lavoura tornou-se republicana.

Esses revolucionários de ocasião foram de importância decisiva na proclamação da República.

A REDENTORA

A regente Princesa Isabel sofreu violento preconceito das classes conservadoras que não admitiam ver o Brasil governado por uma mulher, ainda mais, casada com um príncipe Estrangeiro, o Conde D’Eu. A maçonaria cuja influência era enorme e tinha sede em todo o país liderava os descontentes.

A Lei Áurea deu momentos de popularidade à Princesa Isabel. O mulato José do Patrocínio deu-lhe o título de “A Redentora”. Ela tornou-se um ícone nas camadas populares e na elite urbana do país. A mesma Lei Áurea, no entanto, tirou do trono o seu mais sólido pilar de sustentação: a aristocracia rural e escravagista representada, principalmente, pelos barões do café do Vale do Paraíba.

Os proprietários rurais exigiram serem indenizados pelo governo em virtude da perda dos escravos, para eles, simples propriedade. Ao ver suas reivindicações ignoradas, sentiram-se traídos pela Monarquia e aderiram em massa à causa republicana.

Os maçons dominavam a vida política do Brasil e a com a igreja vivia um sério conflito. A Princesa Isabel seguia as orientações do Papa que não tolerava as lojas maçônicas. Assim, os maçons tornaram-se entusiastas republicanos, até como forma de sobrevivência política.

A princesa Isabel teve primorosa educação ministrada por competentes professores. Governou o Brasil com sucesso por três vezes como regente durante viagens do imperador. Casou-se com o francês Gastão de Orleans, Conde D’Eu. Conforme D. Pedro II envelhecia, a imprensa e a maçonaria propagavam que o terceiro reinado seria exercido pelo francês, pois a esposa devia-lhe obediência. Espalhavam vis boatos sobre o Conde e denegriam a sua imagem como comandante do exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Também era acusado de ser clerical, intolerante, monarquista do direito divino, aristocrata, usurário, avarento.

Isabel, por sua vez, era atacada pelo conservadorismo e pelo apego extremado à religião católica.

A princesa morreu no exílio, em 14 de novembro de 1921, aos 75 anos. Seus restos mortais foram transferidos para o Brasil em 1953 e repousam na catedral de Petrópolis, ao lado do marido, conde D’Eu, e do pai e Da mãe, D. Pedro II e Teresa Cristina. Até hoje, a princesa goza de incontestável popularidade junto ao povo do país.

13. O IMPERADOR CANSADO

Estranhamente, apesar da agitação nos quarteis o governo permaneceu inerte, aparentando total desinteresse ante a ruptura que se avizinhava. Proclamada a República, nenhum comandante de armas ou governador de província saiu em defesa da Monarquia. As raras e isoladas reações foram promovidas pelas camadas mais humildes da população que, obviamente, não tinham meios para contrapor-se ao fato consumado.

A Monarquia caiu como um fruto maduro. Deodoro desejava apenas derrubar um ministério hostil. Era contra o Visconde de Ouro Preto, não contra a Monarquia.

Desde 1887, o estado de saúde do Imperador não era bom. O diabetes estava fora de controle e fortes dores de cabeça impediam-no de exercer as suas funções. Assumiu uma letargia preocupante. Suspeitava-se de estivesse sofrendo problemas mentais. Para tratar-se viajou à Europa levando consigo a Imperatriz. Em Milão, recebeu a extrema unção. Por isso, coube à Princesa Isabel a honra de assinar a Lei Áurea.

Quando voltou, o Imperador já era incapaz de governar como o fazia antes de adoecer. Sua apatia contribuiu para a proclamação da República que substituiu a Monarquia, um regime também exaurido.

Em seus últimos estertores, a Monarquia tentou modernizar-se e foram tomadas medidas liberais que descontentaram os conservadores que era a base de sustentação do regime. A reação veio tarde. A República estava chegando.

14. O BAILE

O famoso baile da Ilha Fiscal foi o último grande evento social da Monarquia brasileira, realizado na noite de 9 de novembro de 1889, um sábado, em homenagem aos oficiais e marinheiros do encouraçado chileno almirante Cochrane.

D. Pedro II considerava os bailes uma “maçada” e o último ocorrera há quatro décadas. Não havia pior ocasião para este da Ilha Fiscal.

Na mesma noite do baile, grande número de oficiais se reuniria no Clube Militar, sob a presidência do tenente-coronel Benjamin Constant, para tratar dos últimos detalhes necessários ao golpe contra a Monarquia.

O local do baile medindo 2300 m2 era fascinante. Especialmente para o baile, potentes lâmpadas elétricas, invenção recente, davam ao evento um aspecto de modernidade. Parecia um sonho de poeta aquela ilha em festa emergindo do mar, transbordante de luz e gala.

A festa varou a noite. Os últimos convidados foram embora ao alvorecer do domingo, no exato momento em que nuvens premonitórias cobriam o sol nascente. Por ironia, Benjamin Constant, líder revolucionário, de longe, ao lado da família assistiu à festa.

Depois da proclamação da república, representantes do novo regime decidiram retirar do salão da Ilha Fiscal o brasão imperial. Isso não aconteceu devido a comovente apelo do republicano convicto, engenheiro Del Vecchio, autor do projeto arquitetônico.

Diante desse apelo, o escudo imperial foi mantido. E lá ainda se encontra, como testemunha silenciosa de um Brasil que deixou de existir naquela noite de 9 de novembro de 1889.

15. A QUEDA

Na véspera do golpe republicano, o Imperador tratou da rotina de governo normalmente. Inclusive viajou de Petrópolis, residência imperial de verão, para o Rio de Janeiro para visitar a imprensa oficial. O dia 15 de novembro começou também tranquilo e o Conde D’Eu passeou a cavalo com os filhos na praia de Botafogo. Por fim, no começo da tarde, chegou à família real a notícias sobre a agressão a tiro sofrida pelo Barão de Ladário. Depois, informações davam conta de que o Marechal Deodoro da Fonseca, o tenente-coronel Benjamin Constant e o jornalista Quintino Bocaiuva estavam no quartel-general à frente dos revoltosos.

O Imperador, informado sobre a situação, viajou para o Rio de janeiro. Mostrou-se confiante, dizendo a todo o momento que a revolta era apenas fogo de palha. Nesse clima, chegou a notícia de que o ministério fora preso. O derradeiro ministério do governo imperial havia sido deposto pelas armas do marechal Deodoro, mas a República ainda não estava proclamada.

Por sugestão do Visconde de Ouro Preto, o Imperador resolveu nomear o Senador Silveira Martins para a chefia do gabinete de ministros. Este era desafeto do Marechal Deodoro. A indicação foi a gota d’água que fez transbordar o copo já cheio. Deodoro, que visava apenas a deposição de Ouro Preto, naquele momento, sentindo-se provocado, resolveu aceitar a proclamação da república e a constituição de um governo provisório.

O Conselho de Estado reuniu-se para estudar a situação. As discussões se faziam à revelia de D. Pedro II, que parecia alheio aos acontecimentos.

Mas, já era tarde. D. Pedro II estava deposto. Pressionado por correligionários, o indeciso Deodoro, finalmente, declarou proclamada a República com a condição de que o governo recebesse o adjetivo provisório. Assim, Deodoro da Fonseca foi declarado Chefe do Governo Provisório, com os seguintes ministros: Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Aristides Lobo, Campos Salles, Eduardo Wandenkolk e Demétrio Ribeiro.

A República nascera de um golpe armado, descolada das ruas, sem qualquer participação popular.

16. O ADEUS

Por volta das dez da manhã de 16 de novembro, uma ordem do novo governo provisório republicano estabeleceu a prisão domiciliar da deposta família real. Logo depois, chegou uma mensagem de Deodoro informando que o D. Pedro II tinha 24 horas para deixar o país.

Durante todo o dia 16, a família imperial ficou detida no Paço. Dom Pedro II impressionava a todos pela calma, mais aparente do que real, com que reagia aos acontecimentos.

Com a desculpa de que temia manifestações violentas contra a família imperial, Deodoro antecipou a partida desta para o exílio. Eram 2h46 da madrugada do dia 17, quando a família imperial começou a deixar o Paço em direção ao navio que os levaria à Europa.

No navio, D. Pedro II foi informado de que receberia uma indenização do governo provisório correspondente, hoje, a 150 milhões de reais. À uma hora da manhã, do dia 18, o navio Alagoas, finalmente recolheu âncoras e começou a se afastar do litoral fluminense. A travessia do Atlântico durou três semanas. Na manhã de 7 de dezembro o Alagoas atracou em Lisboa. Na escala em Portugal, D. Pedro II escreveu a Deodoro renunciando a qualquer indenização.

A renúncia ao dinheiro custaria grandes humilhações a D. Pedro, obrigado a recorrer a empréstimos de amigos para pagar suas contas na Europa até morrer, em 1891.

Em sua estada em Lisboa, visitou o amigo escritor Camilo Castelo Branco, que estava empobrecido, cego e quase surdo. Ambos choraram de emoção no encontro.

Uma tragédia pessoal o vitimou na mesma Lisboa em 28 de dezembro: A Imperatriz Teresa Cristina faleceu de ataque cardíaco.

Após o sepultamento da Imperatriz, Dom Pedro II viajou para a França, última etapa de seu exílio.

Em 14 de janeiro de 1891, aos 75 anos, morreu o grande amor de D. Pedro, a baiana Condessa de Barral. Mais uma vez, uma tragédia pessoal atingiu a sua vida.

D. Pedro II morreu em 5 de dezembro de 1891 em Paris. Acabara de completar 66 anos. Foi enterrado em Lisboa, ao lado da esposa, depois de exéquias de chefe de estado em Paris. No seu quarto foi encontrado um embrulho contendo terra que ele levou do Brasil. Seu último desejo: que aquela terra fosse colocada no seu caixão.

Em 8 de janeiro de 1921, os restos mortais do Imperador e da Imperatriz foram trasladados para a catedral de Petrópolis, onde se encontram atualmente.

17. OS BESTIALIZADOS

O dia 16 de novembro foi de perplexidade. Fruto de uma conspiração entre militares e um número reduzido de civis, a Proclamação da República pegou a todos de surpresa.

Os militares estavam na rua confraternizando com o povo e não receberam de volta nenhuma demonstração de entusiasmo popular. Simplesmente, as pessoas não entendiam o que estava acontecendo.  O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.

Entre os pobres, soldados rasos e ex-escravos ainda houve algum protesto. O restante da população – especialmente aquela que detinha alguma riqueza, poder e influência política – aderiu à República com a maior naturalidade.

Os antigos servidores do Império, incluindo os nobres da corte, aderiram em massa ao novo regime. As exceções são ínfimas diante da magnitude das adesões.

Apesar do discurso republicano afirmar que o movimento se curvaria à vontade do povo, o que se viu foi uma rigorosa ditadura. As opiniões que contrariavam os mandatários eram punidas. Não tivemos nada parecido com a Revolução Francesa, pretenso modelo para o golpe militar de 15 de novembro de 1889. Os militares julgaram-se donos e salvadores da República.

Joaquim Inácio Cardoso, capitão da Guarda Nacional em Goiás escreveu ao filho, no Rio de Janeiro: “Vocês fizeram a República que não serviu para nada (…) Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado.” Joaquim Inácio seria o avô do futuro Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, que em Goiás, contou com o apoio do deputado Ronaldo Caiado, inimigo confesso da Reforma Agrária, uma das muitas promessas adiadas pelo regime republicano.

18. ORDEM E PROGRESSO

Proclamada a República, uma das primeiras providências do novo regime foi trocar o nome de vias, repartições, estátuas, cidades e congêneres para homenagear os heróis republicanos. O fenômeno aconteceu em todo o Brasil.

Os tratamentos e saudações formais também mudaram. As pessoas cumprimentavam-se desejando “saúde e fraternidade”, divisa emprestada da maçonaria e usada na Revolução Francesa. Na correspondência oficial adotou-se o tratamento “Cidadão” em lugar do cerimonioso “Vossa Excelência” do Império.

A partir de 1889, Tiradentes saiu do ostracismo para a condição de herói nacional. Afinal o documento que o levou à forca fora assinado por Dona Maria I, bisavó de D. Pedro II. A partir de 1889, ele renasceu das cinzas como herói nacional.

O povo apenas rebelou-se quando o governo fez um concurso tencionando mudar o Hino Nacional. Não houve jeito de convencer a massa e a música de Francisco Manuel da Silva sobreviveu, contando apenas com uma nova letra de Osório Duque Estrada.

A nova bandeira foi objeto de muitas arengas devido ao seu conteúdo positivista.  O lema do positivismo era: “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. Como a igreja católica considerava o positivismo de Augusto Conte uma seita, o bispo do Rio de Janeiro recusou-se a benzer o pavilhão que continha a divisa: Ordem e Progresso.

Na verdade, os primeiros passos da República seriam de pouca ordem, minguado progresso e, definitivamente, nenhum amor.

19. O DIFÍCIL COMEÇO

O governo provisório durou de 15 de novembro de 1889 a 25 de fevereiro de 1891.O início do novo regime foi confuso, principalmente porque não havia quadros competentes em número suficiente para gerir o Estado. O país portou-se como incansável usina de leis. Governos estaduais depostos era uma rotina.

Os governadores estaduais eram todos militares de alta patente. O golpe de 1889 proporcionou aos militares benefícios imediatos como altos reajuste salariais, promoções e reformas. Todos os ministros tornaram-se generais, até os civis, como Rui Barbosa, Quintino Bocaiúva e Francisco Glicério. Os ministros civis recebiam soldo e todas as vantagens concedidas aos militares, inclusive aposentadorias compatíveis com o posto.

Após muita celeuma, reuniu-se uma Assembleia Constituinte. No dia 24 de fevereiro de 1891, o país finalmente adotou a sua constituição republicana. A cidade do Rio de Janeiro funcionaria como capital do país até que se construísse uma capital no planalto central.

A Constituição, pelo que transparece de seu texto, era democrática e respeitava os direitos individuais e coletivos. O voto feminino não foi permitido. Seria transformado em lei somente quatro décadas mais tarde, em 1932.

20. A RODA DA FORTUNA

Nos primeiros meses de 1890, embarcando na onda do otimismo republicano, foram surgindo empresas de características urbanas notadamente no Distrito Federal. Algumas, pitorescas, prestavam serviços inusitados como, por exemplo, o fornecimento de criados para segurarem as alças de caixões de defuntos. Quem observasse esses anúncios teria a nítida impressão de que um novo e arrojado Brasil se estava erguendo praticamente do nada e totalmente diferente do país escravagista e paupérrimo do passado monárquico.

Infelizmente, nada disso era realidade. Ao anúncios de jornais retratavam um Brasil fictício composto de títulos, certidões e contratos alimentados por uma ciranda financeira como nunca se vira na história brasileira. Esse período passou para a História com o nome de Encilhamento e durou dois anos. As pessoas “bolavam” nomes sugestivos para as suas empresas, pediam o reconhecimento legal no qual descreviam a atividade do novo empreendimento. Com a autorização, o suposto empresário estava livre para imprimir ações no valor e na quantidade que o mercado estivesse disposto a comprar. Se os papeis fossem bem aceitos pelo mercado, o autor da ideia embolsava os lucros, gastando-o na mais descontrolada farra consumista. Nem pensava em investir nos seus negócios. Tal modelo econômico não poderia dar certo. A inflação foi galopante e a grande maioria dos bancos fundados no rastro daquela profusão de papeis faliram. As empresas fictícias também não sobreviveram salvo exceções, como a Companhia Antárctica de Cervejas, A Companhia Melhoramentos de Papeis, O Bairro de Copacabana no Rio de Janeiro, entre outras.

O fracassado Encilhamento de Rui Barbosa, Ministro da Fazenda, as brigas no ministério, o gênio difícil do Marechal ceifaram o governo iniciado em 1889. Assim, entrou em cena um dos personagens mais enigmáticos e controvertidos de toda a história brasileira – o alagoano Floriano Peixoto, o “Marechal de Ferro”.

21. O CABOCLO DO NORTE

Velho, gravemente enfermo, sem forças nem paciência para reagir às pressões, Deodoro da Fonseca renunciou ao mandato no dia 23 de novembro de 1891, passando o governo ao vice-presidente Floriano Peixoto, alagoano e marechal como ele.

Em 3 de novembro, Deodoro promovera um golpe dentro do golpe, fechando o Congresso e suspendendo a Constituição e os direitos individuais. Além disso, demitiu alguns governadores. A marinha, reduto monarquista, se insurgiu e o Marechal renunciou.

Floriano Peixoto conduziu o governo mais tenso e violento dos primeiros anos da República. Encontrou uma crise financeira sem precedentes, profundas divergências entre os republicanos, a oposição da marinha e uma crise política no Rio Grande do Sul que logo se converteu em guerra civil. Logo ao tomar posse, promoveu uma limpeza geral na máquina republicana, afastando aliados de Deodoro e suspeitos de simpatia à Monarquia. O Marechal era franzino e não tinha postura militar; gostava de ser chamado de Caboclo do Norte.

Seu governo foi sangrento e teve que enfrentar muitas revoltas que terminaram com inúmeras mortes. Governou sem o Congresso e sem a Constituição. Seus biógrafos tiveram sempre a tentação de compará-lo a animais peçonhentos porque os seus modos não inspiravam confiança; era um homem dissimulado. Restou para a História uma declaração sua nos seguintes termos: “Como liberal, que sou, não posso querer para meu país o governo da espada, mas não há quem desconheça, e aí estão os exemplos, de que é ele que sabe purificar o sangue do corpo social que, como o nosso, está corrompido.” Vê-se que Floriano definia-se como liberal, contrário ao governo da espada. Por outro lado, achava que a solução era a ditadura. E foi com a espada que governou o Brasil do primeiro ao último dia em que exerceu o supremo poder. Prendeu, deportou e mesmo executou opositores com toda a naturalidade.

O pior, no entanto, ainda estava por vir.

  1. 23.  PAIXÃO E MORTE

Em 1893, no Rio Grande do Sul, ocorreu a chamada Revolução Federalista. O movimento foi reprimido com selvageria pelo governo de Floriano Peixoto. Num só dia, numa fazenda da cidade de Rio Negro, cerca de 700 revoltosos decapitaram sumariamente 700 governistas.

De um lado estavam os republicanos fiéis ao presidente Floriano Peixoto e ao governador Júlio de Castilhos, também conhecidos como legalistas ou pica-paus. De outro, os rebeldes federalistas, chamados de maragatos, sob a chefia de Gaspar Silveira Martins. Semanas mais tarde, em abril de 1894, os pica-paus legalistas de Floriano Peixoto e Júlio de Castilhos vingariam a cena promovendo outra degola geral na localidade de Boi Preto, onde foram mortos de modo semelhante 370 maragatos.

A sangrenta Revolução Federalista, por dois anos (1893 a 1895), dilacerou o Rio Grande do Sul. Os confrontos mais sangrentos ocorreram entre o Rio Grande do Sul e o Paraná. Os combates só cessaram com a vitória dos pica-paus e a morte do líder maragato Gumercindo Saraiva.

Júlio de Castilhos morreu em 1905 e deixou como sucessor Antônio Augusto Borges de Medeiros tão truculento quanto ele. Borges de Medeiros governou o Rio Grande por 25 anos. Na história republicana brasileira, nenhum governante exerceu o cargo por tanto tempo.

24. O DESAFIO

No dia 2 de novembro de 1894, o paulista Prudente José de Morais e Barros, primeiro presidente civil da República, chegou ao Rio de Janeiro.

O presidente eleito foi recebido com indiferença. No dia 15 e novembro, teve que alugar um carro para levá-lo ao palácio do governo. Floriano Peixoto não transmitiu o cargo, nem sequer deu-se ao trabalho de colocá-lo a par dos desafios que enfrentaria. Pegou um bonde, pagou a passagem do próprio bolso e tomou o rumo de sua casa humilde no subúrbio do Rio de Janeiro.

Prudente de Morais, no seu primeiro dia de trabalho, encontrou o palácio depredado. Além disso, líderes políticos e intelectuais profetizavam a desintegração do país que seria dividido em nações de importância maior ou menor na América do Sul. Desmentindo as previsões pessimistas, Prudente de Morais conseguiu governar.

Floriano Peixoto morreu, causando grande comoção popular, em 29 de junho de 1895.

O novo presidente retomou as relações com Portugal e anistiou os envolvidos na Revolução Federalista. Além disso, tomou medidas que visavam a desmilitarização do governo.

A revolta de Canudos, chefiada pelo messiânico Antônio Conselheiro serviu para dar argumentos aos que desejavam a volta da ditadura militar.

O prestígio de Prudente de Morais foi retomado com a descoberta de atentados à sua vida que não tiveram sucesso por pouco. Ao tomar conhecimento do fato, a população se voltou a favor do presidente que pôde concluir o mandato em paz. Transferiu o poder para o seu conterrâneo Campos Salles, o segundo civil na Presidência da República.

Enfrentou séria crise financeira. Em 1900, a situação econômica era tão alarmante que metade dos bancos foi à falência.

Campos Salles criou a política dos governadores. Para obter apoio político prestigiou as oligarquias regionais que servilizaram o povo. A fraude eleitoral campeava. Os estados eram grandes condomínios caracterizados pelo absolutismo de oligarquias opressivas.

 A República, nos seus primeiros cem anos, foi uma monarquia disfarçada. Os antigos nobres eram agora os barões do café. Na prática, a República brasileira, para se viabilizar, teve de vestir a máscara da Monarquia, desvinculando-se de sua razão de ser: o povo.

Em 1993, realizou-se o plebiscito anunciado por Benjamin Constant na noite de 15 de novembro de 1889. Oficialmente, o povo decidiu-se pela República como sistema de governo. A Campanha das Diretas Já, abriu caminho para que a República pudesse, finalmente, incorporar o povo na construção de seu futuro.

É desse desafio que os brasileiros se encarregam atualmente.

FIM

patchwilton

Wilton Fonseca é professor de português há 39 anos, leitor compulsivo e colaborador do Vejamos. Encontre-o no Skoob ou por e-mail.

 

 


2 Comentários
  1. Regis Augusto disse:

    A república brasileira foi proclamada com um golpe militar sem apoio popular, a tradição brasileira é monárquica todas as repúblicas sul americanas não gozaram de estabilidade como o império brasileiro, com relação ao fim do império como se sabe uma mulher foi o foco principal da decisão de Deodoro que na minha opinião foi um traidor, era amigo de confiança do Imperador, mesmo após o golpe estampava as condecorações imperiais no peito, o que eu acho mais sarcástico é ver que alguns dos lideres republicanos se arrependeram do golpe após alguns anos de república, a corrupção no Brasil surgiu com a elite política criada pela república, outro detalhe a forma que deturparam a história do império a campanha massiva de acabar com os símbolos imperiais, nomes etc.. enfim descaracterizam muitos prédios , monumentos tudo que remetia a monarquia, o que somos hoje uma nação ignorante, com um pequena vivência de uma falsa democracia república , que emerge em um mar de corrupção aonde os três poderes da república são cômicos!!

    Mudaram a nossa bandeira imperial por uma bandeira positivista, só não trocaram o verde amarelo por pouco, o hino então quase enfiaram a força o horrível hino da república enfim passa quase um século um plebiscito mal feito, com uma enorme articulação política para tentar desmoralizar a monarquia parlamentar enfim esse é o Brasil republicano aonde os políticos fazem seus truques e acabam convencendo a massa ignorante.

    Isso é fato um povo tem o governante que merece, mais em se tratando de uma democracia que obriga o voto, se diz federalista é não da poderes aos Estados federados enfim qual o futuro que aguarda para um Brasil que não amadureceu em sua experiência fracassada republicana???

    Enquanto o povo com seu sebastianismo aguardo um messias , Lula tentou vestir essa carapuça se dizendo ser do povo, para os pobres enfim não só ele mais coo outros presidente o populismo é algo execrável na politica brasileira.

  2. Wilton Fonseca disse:

    Régis Augusto
    Concordo com a sua visão que não é sectária, mas corroborada por fatos. Comungo com aqueles que afirmam que a República ainda não foi proclamada no Brasil. Obrigado por dedicar parte do seu precioso tempo a tão vibrante comentário. Peço que leia outros resumos e, se possível, comente-os.

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